Final de semana passado fui encontrar uma grande amiga na cidade dela. Inicialmente, a ideia era escolher um pré-carnaval, ensaio de bloquinhos de BH, mas, entre uma taça de vinho e outra, uma cama superconfortável, Nina (uma doguinha linda) tentando se comunicar, episódios do programa da Tatá Werneck e a gota d’água de um filme do Almodóvar… a noite evoluiu para uma conversa bem honesta entre amigas: “Amiga, a gente é bem tóxica às vezes!”
Que desconfortável foi dizer: “É… às vezes a gente é mesmo, né?”. Só não foi mais desconfortável porque — que maravilha! — nas duas frases ditas havia o “às vezes”. Que poderosa expressão, mas que não acalmou o fervilhamento aqui dentro ao pensar que a toxicidade não era exclusiva de pessoas que classificamos como narcisistas, controladoras ou, simplesmente, imaturas. Logo a gente? Somos tão gente boa, tão alegres, tão educadas, tão cheias de valores altruístas, tão conectadas com o senso coletivo, tão empáticas…
Conectados pelas redes afora, encontramos um milhão de vídeos de pessoas cheias de autoridade (legítima e não legítima) apontando como os relacionamentos são tóxicos, descrevendo as características de pessoas tóxicas, de famílias tóxicas, de instituições tóxicas, entre tantas outras situações e contextos tóxicos. Mas pouco encontramos pessoas comuns, assim, gente como a gente, se apropriando de momentos em que temos atitudes tóxicas.
Vamos brincar de “quem nunca”?
Vai me dizer que nunca fez comparação entre uma pessoa e outra para que ela se comportasse da maneira que, para você, fazia mais sentido? Quem nunca desafiou uma relação para suprir uma necessidade de reassegurar afeto? Quem nunca enfatizou o lado negativo em uma situação para supostamente se beneficiar? Quem nunca manipulou com um drama para afetar o outro? Quem nunca tentou imputar culpa ao outro sobre algo que era de responsabilidade própria? Quem nunca foi coercitivo com alguém que se comportou diferente do que se esperava? Quem nunca fez uma chantagem emocional? Quem nunca…
E assim, provavelmente, testemunhamos conflitos, reprimimos expressões genuínas de pessoas de quem gostamos, ignoramos os sentimentos e sentidos dos outros, agredimos a liberdade alheia, comprometemos relações importantes, subjugamos o trabalho de pessoas competentes, limitamos a criatividade, produzimos emoções nocivas no grupo, desrespeitamos a existência do outro. No final das contas, todos acabamos por sofrer.
E aí entra o poder da auto-observação… No meu caso, aconteceu em parceria com uma amiga em quem confio, que também se comprometeu a olhar de maneira honesta sobre as próprias atitudes. Toda a atmosfera e atitude favoreceram o acolhimento dessa imperfeição assumida. E assim, houve ambiente para compreendermos que essas atitudes tóxicas ocorreram em momentos em que estávamos infelizes, com algum problema no trabalho, na vida, na família ou conosco mesmas, por insegurança e medo. Criamos um espaço para revisar nossas atitudes e seguir transformadas. Vamos continuar a ter atitudes tóxicas? Provavelmente, mas estaremos mais atentas e conscientes para evitá-las.
O reconhecimento de que podemos ter atitudes tóxicas e de que elas fazem parte das relações e de nós é o primeiro passo para identificar pessoas que apresentam desvio de caráter, transtorno de personalidade ou ainda imaturidade, assim como em outros contextos, como na família, instituições e também no trabalho. Perceberemos mais facilmente a intencionalidade de nos fragilizar e, então, poderemos estabelecer os limites.
Quando se perceber naquele momentinho tóxico, reconheça de forma genuína, divida com pessoas em quem confia ou com algum profissional. Tente compreender o que está por trás dessa atitude, qual necessidade está tentando suprir, avalie o prejuízo na relação com o outro em seguir com tal atitude. Peça desculpa e busque a mudança. E, por fim, perdoe-se…
A verdade é que sim! Podemos sim, às vezes, ser tóxicas!
Por @Dianapsic